quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Sobre a coragem (ou a falta dela)

Para ler ao som de Los Hermanos, Sentimental
"O abismo que é, pensar e sentir..."

Entrou no carro decidido, vou acabar com essa droga! Ligou o rádio e procurou a estação mais triste, onde tocasse a música mais melancólica, dessas que fazem doer a alma sabem?Respirava fundo, ofegante, bem rápido e tão alto que mesmo com o volume no máximo, conseguira se escutar. O peito parecia oco, e ao mesmo tempo pesado, dormente, doente...
Andou muito, correu tudo que pode, mas os pensamentos superavam qualquer que fosse a velocidade, vagavam por lugares obscuros, embolavam-se, engalfinhavam-se, contradiziam-se...
Dirigiu então até um enorme penhasco, cercado de rochas  e contornado pelo mar, parou o carro metros antes, desceu e correra em direção a beira do abismo, a intenção, com toda a certeza, era atirar-se, dando fim a todos os problemas, dúvidas ou mágoas que o cercavam e atormentavam por muito tempo. Quem sabe houvesse uma vida melhor após a morte, quem sabe pudesse recomeçar do zero, fazer diferente, ou até mesmo fizesse diferença na vida de alguém, já que há tanto, o sentimento que predominava era de inutilidade e desprezo de si.
Correra tão depressa, que a velocidade fez com que seu corpo não conseguisse travar diante do precipício, resvalou e caiu sentado, em terra firme, mas com os pés quase que no ar, fazendo com que algumas pedras se desprendessem e caíssem vagarosamente, desaparecendo na imensidão, mergulhando levemente naquele mar, tão belo, porém tão tempestuoso e revolto. Quando a poeira baixara, olhou num misto de pavor e euforia para o próprio corpo, primeiro mãos e braços, depois pés e pernas; tocara em seu rosto para que pudesse sentir a respiração e ter a certeza de que realmente estava vivo; o coração parecia saltar-lhe pela boca a qualquer momento, tremia sem parar, suava frio.
Assim, permaneceu por alguns minutos, sentado, tentando entender o que de fato havia acontecido, espiou mais uma vez o mar, esticando somente o pescoço, quase que sem se mexer; levantara então bem devagar, limpara as mãos, batendo uma sobre a outra, as mesmas encontravam-se escalavradas devido ao impacto, mas dor era sentimento pequeno, que passara desapercebido perante o acontecido. 
Entrou no carro, desligou o rádio e foi embora. Covardia? Arrependimento? Quem sabe... O fato é que, descobriu, naquele instante, que o medo da morte era bem maior do que o de encarar a vida. 
Decidira então, por fim, viver.

4 comentários:

  1. Gosto desta palavra: CORAGEM! Já escrevi sobre ela! Que bom se dar conta de que a vida vale a pena...
    Não sabia que tu era blogueira.
    ADOREI!
    Bj

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  2. Poh, tu quem fez? Estou indgnado... Extaseado... Muito lindo, legal e todo blablabla... Ja estou relendo... :P

    Curti!

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  3. Obrigada gente! Fazia tempo que não escrevia nada...me veio essa ideia ontem, falar sobre a vida, ou sobre o medo que algumas pessoas tem de encará-la!

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